É dezembro

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Em março eu escrevi “não tenho mais unhas para roer e nem coragem para continuar”. Em março eu não fazia ideia do que ainda estava por vir. O pior? É dezembro e eu continuo sem saber.

Nós estamos em transformação constante. Assim também é com os nossos sonhos, prioridades e dilemas. Em março eu estava no início do segundo semestre da faculdade e, relendo os meus textos da época, eu nem imagino mais qual era o conflito interno que me fez roer tanto as unhas. Mas eu lembro dos conflitos de agosto. E setembro. Outubro também.

O curioso de estar vivendo um momento ruim é que nós sentimos como se nunca tivéssemos passado por nada como aquilo. E talvez não mesmo. Mas a gente esquece que nós já derramamos outras lágrimas no meio do caminho e que fomos nós mesmos que secamos elas com o tempo.

É certo que a cada decepção nós murchamos um pouco mais. Foi assim que aconteceu comigo, pelo menos. Mas eu murchei tanto que nem as outras flores que estavam na minha volta eu enxerguei mais. Parei de apreciar a beleza das pequenas coisas. O que é trágico se formos pensar que eu me encaixo entre essas “pequenas coisas” que me refiro.

Por meses eu fiquei com a frase de uma colega minha do ensino médio na cabeça. Ela dizia “Eu acho incrível como a Mariana tá sempre rindo. Parece que ela nunca fica triste”. E pensando nos meus dias de colégio eu realmente não posso reclamar. Em algum ponto dessa história toda a frase da Natália parou de fazer sentido. Não tinha mais efeito. Deixou de ser verdade. Quando percebi isso, em um daqueles momentos que fiquei me encarando incansavelmente no espelho, a sensação de despertencimento tomou conta de mim. Eu já não me enxergava mais naquele reflexo e parecia que a cada lágrima que rolava pelo meu rosto uma parte do meu verdadeiro eu se despedia.

Andei por ai perdida. Sozinha. Mas eu sabia que não adiantaria ter alguém ao meu lado para me ajudar. Não mais. Eu precisava daquela pessoa que eu via na frente do espelho todos os dias. Passei a buscar a única sincronia que eu realmente precisava.

Em maio eu escrevi alguma coisa sobre ter finalmente me encontrado. E na época era verdade. Eu finalmente soube quem eu sou, o que eu quero e pelo o que eu faço.

A inocência por pensar que as ouras pessoas se importavam comigo na mesma intensidade em que eu me importava com elas acabou por me dar algumas rasteiras. Entre essas quedas, acabei perdendo partes essenciais de mim.

Lembro da Jordana me dizer “Tu não era assim, Mari. Antes tu tava sempre falando merda e agora fica quieta ai no canto olhando os outros”. Na hora eu pensei: besteira. Mas no fim, ela tava certa.

Quando eu me dei conta disso, pareceu ser tarde demais. E isso me assustou. Eu nunca, em toda a minha existência, tinha ficado naquele estado. Me doeu cada uma das coisas que me atingiram nos últimos meses, mas principalmente a consciência de que eu havia me permitido chegar naquele ponto sem ter procurado ajuda.

A verdade é que a gente nunca quer ser ajudado. Não queremos acreditar que não somos capazes de curar as nossas dores sozinhos. Isso sim é burrice.

Eu aprendi muitas coisas com cada lágrima. Entre elas, aprendi que a verdadeira força está em quem tem coragem de demonstrar a fraqueza. Não é vergonhoso chorar na frente de ninguém. Não é infantil procurar conselhos de outras pessoas. Quando comecei a mostrar para as pessoas certas o tamanho da minha vulnerabilidade, encontrei a força que precisava para me reerguer.

Aprendi também que nem todo mundo se importa com o que sentimos e essa é a vida. Eu me esforcei demais por quem não deu a mínima para o que eu sentia. Perdi energia e tempo com quem não merecia nem uma das minha últimas dores de cabeça. E talvez esse tenha sido um dos aprendizados mais importantes do ano.

É dezembro e eu não faço ideia do que ainda está por vir. Mas sei o que já passou e quem passou também. Conheço a estrada que trilhei para estar aqui hoje e sei que sempre vou encontrar o caminho de volta caso eu me perca novamente. A viagem serve para que a gente possa aprender um pouco mais, por isso ela é importante, e independente dela, saber que chegamos em um lugar calmo novamente também é revigorante.

 

 

 

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