Semente

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Sempre gostei de girassol. Na terceira série a professora Sarah disse que uma flor de girassol era como um grande buquê de flores. Fiquei fascinada e foi isso o que eu contei em casa sobre o que havia aprendido na escola aquele dia.

Entretanto, nunca me sai muito bem na tarefa de cuidar de coisas vivas. Adorava caçar joaninhas pelo jardim e acreditava fielmente que elas viveriam por anos em um pote de margarina com a tampa furada. Também tive alguns problemas com meus peixes azuis. Sim, foram mais de três tentativas falhas.

Com pessoas as coisas aconteciam um pouco diferente. Felizmente não posso guardar ninguém em pote nenhum, ou até mesmo comprar outra pessoa igual para substituir aquela que se foi. As coisas só não funcionam assim e provavelmente seja realmente melhor desse jeito.

Quando alguém diz querer guardar outra pessoa em um pote, confesso que fico um pouco preocupada. Como vai alimentar ela? Ou como tem certeza que aquele buraquinho é o suficiente para ela continuar viva?

Assim como as joaninhas e borboletas, pessoas lindas de alma aparecem por aqui vez ou outra. Fico admirando tamanha beleza e imagino com os meus botões que mal teria se elas só ficassem por perto por um tempo. Tudo bem se elas ficarem por pouco tempo, não me preocupo com isso.

Não me preocupar com o tempo não significa não me importar com ele. Não se confunda, nem me entenda errado. Estar rodeada de pessoas que iluminam e colorem nossos dias é extremamente gratificante, mas apenas temos que admitir que em algum momento outro alguém pode merecer mais toda aquela cor e luz.

Há dois meses atrás eu ganhei as minhas primeiras mudinhas de girassol. Pesquisei o melhor lugar da casa para deixá-las, reguei todas as manhãs e troquei de pote quando senti que estava na hora. Elas cresceram, mas ainda não floresceram. Nesse meio tempo aprendi a lidar com essa espera gigantesca por algo que tenho convicção de que será bonito.

Quando o caule ameaçou quebrar com uma ventania de julho, logo coloquei um pequeno galho ao lado, amarrando com uma fita para estabilizá-la. E na semana passada percebi que talvez não dê certo. Mesmo com todos os cuidados e medidas tomadas, as folhas parecem secas e talvez seja isso mesmo, talvez só não dê certo.

Primeiro pensei em todos os dias que parei e fiquei analisando com cuidado cada mudança notória da minha flor. Lembrei das minhas expectativas e do tanto que eu sempre quis um girassol. Aquele amarelo vivo contornando o preto, trazendo a sensação de equilíbrio entre a felicidade e os meus momentos mais solitários. Na verdade essa parte tirei da minha cabeça, nenhum site me falou sobre solidão enquanto explicava os significados do girassol. No meu coração faz sentido, então a minha cabeça acredita. Acho que todo mundo tem algo assim.

Da mesma forma que acredito que está tudo bem as pessoas virem e irem, me peguei pensando sobre quando plantarei outras sementes de girassol. Quando aceitarei que não adianta amarrar mais um galho próximo?

Nós definitivamente nos esforçamos demais e colocamos muita energia no que acreditamos ser aquilo que queremos ou precisamos. Não aceitamos a ideia de que de vez em quando as coisas acabam antes do que imaginávamos e esquecemos que não tem problema nenhum nisso.

Quem sabe não deveríamos focar por algum tempo nas nossas próprias flores, ao invés de torcer que alguma brote por ai quando bem entendermos? De repente nós nos surpreendamos com as nossas próprias flores e percebamos que era disso que nós precisávamos.

Nestes dois meses com a minha mudinha de girassol, que nem tive tempo para pensar no nome, algumas pessoas apareceram por aqui. Um certo caos se formou e eu finalmente encontrei uma pessoa a quem dedicar tamanha calmaria.

Comecei a imaginar agora, enquanto penteio o cabelo ainda molhado, que loucura seria se na verdade os meus girassóis que tanto quero colher estivessem nas pessoas. E conforme passam os dias, a minha tarefa é regar e cuidar para que, quem sabe um dia, essa pessoa me permita conhecer a sua flor mais bonita.

8 de março – O Dia da Flor

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No dia 8 de março de 1857, mulheres que trabalhavam em uma fábrica de tecidos em New York reivindicavam por melhores condições de trabalho, como um salário equivalente ao dos homens, pois na época recebiam um terço do que eles recebiam. Naquele 8 de março o presente que ganharam pela luta foi um incêndio na fábrica com todas trancadas lá dentro. Mas espera. Pra que comemorar o dia da mulher, não é mesmo?  Só depois de 118 anos depois daquele 8 de março a ONU reconheceu a data que em 1910, em uma conferência na Dinamarca, teria sido decidido que o oito de março se tornaria o dia internacional da mulher.

 Durante um dia inteiro nós mulheres recebemos flores e chocolates. Ou pelo menos é a ideia que a mídia tenta passar, afinal não estamos na casa da cada mulher no mundo para ver o tamanho dos hematomas em seus corpos causados por “amor”, como diria algum jornal. Homens compram flores para suas esposas, mães, avós, filhas como se essas flores apagassem cada “volta pro tanque”, “vai lavar uma louça”, “parece uma puta com esse batom” dito nos outros dias do ano.

 O dia da mulher, querida grande mídia, é muito mais do que por um comercial emocionante de um pai e um filho comprando algum perfume/chocolate/sapatos/flores pra mãe. O dia da mulher é a marca da nossa luta diária por direitos básicos como poder andar na rua sem passar por olhares maliciosos só por estar usando um short, poder seguir uma carreira sem ser desvalorizada só por ser mulher, poder mandar no próprio corpo.

 Ainda existem homens que em pleno 2016 acham que essa data é mais um mimimi do feminismo. Que feminismo é vitimismo, ou pior: quer colocar a mulher acima do homem. As pessoas possuem uma facilidade enorme em julgar sem ao menos ler sobre o assunto, o que eu simplesmente acho uma habilidade incrível do ser humano. É extremamente doloroso ouvir argumentos tão sem sentido como: “se feminismo quer igualdade, porque o nome é feminismo?!”. As vezes, eu só queria entrar no cérebro de algumas pessoas e desligar o botãozinho do senso comum delas.

 Partes do corpo dissipadas. Gritos. Lágrimas.

 “Esconde esse olho roxo!”.

 “Ninguém mandou não se cuidar”.

 “Mas olha o tamanho da tua roupa! Não vai sair desse jeito!”.

 “Como que tu sabe que o filho é meu?! Dá pra todo mundo. Não é meu não”.

 “Te rala. Ninguém mandou engravidar. Vai ter a criança sim”.

 “Feliz dia da mulher, senhora. Toma aqui essa flor”.

 É mais ou menos assim que as coisas funcionam. Meninas de 10 anos grávidas, mas a culpa é delas, afinal. Não pode abortar. Homem se acha no direito de tocar no corpo da mulher sem consentimento e chama ela de mal educada se tem alguma reação de repúdio.

 O dia da mulher é muito mais do que agradecer pela mãezinha que lava a louça e lava as tuas cuecas. O dia da mulher é muito mais do que uma flor, que até pouco tempo atrás custava 3 reais. 8 de março é o dia em que homens cínicos engrandecem seus egos pensando que estão fazendo grande coisa mandando textinho no whatsapp, comprando bombom e florzinha, mas que chegam em casa e dizem que mulher não pode isso, não deve aquilo, tem que fazer isso e usar aquilo.

 O dia da mulher é comemorado pela luta das mulheres, pelas grandes conquistas que não foram valorizadas. É o dia em que todos devemos por uma mão na consciência  e outra em pesquisas que nos mostram o porque desse dia, o porque do feminismo e o porque dessa realidade tão dolorosa para tantas mulheres no mundo inteiro.

FELIZ DIA DA MULHER MOÇAS, E QUE SIGA A LUTA. JUNTAS PODEMOS TUDO.